quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Duas sombras. Uma alma.

          Deram as mãos. Com o pôr-do-sol trás de seus corpos, caminhavam olhando para suas sombras. Ele com passos lentos e longos. Ela com passos curtos e apressados. Mas seguiam lado a lado, como se caminhassem com as mesmas pernas. Ele olhou para a sombra dela e pensou em todos os lugares que ainda passaria. Ela olhou para a sombra dele e admirou a sua grandeza.
        Caminhavam calados. Ambos eram assim... Conheciam bem as palavras. Ela pelo prazer de descobri-las, ele pela experiência que tinha. E, por conhecê-las tão bem, os dois sabiam que nem sempre precisavam usá-las; tinham mais força quando não eram pronunciadas. Segredos só deles, compartilhado pelo silêncio, selado com um sorriso. Ele olhou para a sombra dela e lembrou que um dia não a veria, não pegaria em sua mão, não ouviria seu silêncio. Estreitou os dedos, doeu o peito. Todos os dias o mesmo percurso, os mesmos passos, as mesmas mãos. O desejo era de eternizar o pôr-do-sol, no entanto as sombras se alongavam e logo seria noite. No fundo ela sabia. Queria logo chegar em casa. Com todas as luzes acesas, vai parecer que ele estará lá para sempre. A luz continua diminuindo e suas sombras ficam cada vez mais parecidas. Exceto pelo tamanho, claro (ela ainda tem muito a aprender).  Para ela, ele sempre será grande. Para ele, ela sempre caberá em seus braços. Mesmo quando não estiver mais para abraçá-la.
            Quando houver apenas uma sombra ela sentirá sua falta. E caminhará até que o sol se ponha. Mas sentirá que não está sozinha.




"Devemos ouvir o silêncio não  como um surdo, e sim como um cego." (Fernando Sabino)

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PE, Brazil
Um constante vir a ser. Seguindo a sombra dos moinhos de vento...